Geraldo Azevedo esteve recentemente em minha casa, com seu violão, sua paz e uma garrafa de vinho debaixo do braço. Cantou, tocou, relembrou o tempo em que formamos uma dupla. Geraldo Azevedo faz parte de mim. Talvez eu não existisse como artista se não o tivesse conhecido. Foi Geraldo quem quebrou minha timidez em relação à música. Com ele compus “Talismã”, “78 rotações”, “Virgem Virgínia”, “Táxi lunar” (esta em parceria com outro grande amigo, Zé Ramalho).
Se eu morasse perto de Geraldo, tocaria violão todo dia. Ele jamais se afasta do violão. Quando conversa, está com o violão. A cada gole na taça de vinho, faz uma passagem rítmica ou um acorde. Já me contaram que até quando vai ao banheiro ele leva o instrumento. Temos ligações familiares. Ele é meu compadre, pois sou padrinho da apaixonante Gabi. Quando conheci Geraldo, ele não bebia nada e só ficava observando o compadre biriteiro. Hoje é o contrário.
Convido vocês a apreciarem um pouco da arte de Geraldo Azevedo em dois tempos. Eis aqui seu primeiro disco – com arranjos de Radamés Gnattali e Dori Caymmi – e também seu mais novo trabalho. É escrita fina, comovente.
Diana,
Me dê um Talismã
Viajar,
Você já pensou em mais eu
Viajar
Quando o sol
Desmaiar
Ah, vou viajar
Olha essa sombra
Esse rastro de mim
Olha essa seta
Essa réstia de sol
morena...
Ah, Diana nem ligou
Virgem Maria, essa cidade
Essa menina tem minha idade
Quer me falar e se escondeu
É a décima vez e se escondeu
Atrás da vitrina de qualquer esquina
No fundo do mar
Nada, nada
O carro, Virgínia, atropela, atropela
A pressa, menina, atropela, atropela
Os pés dessa gente, atropela, atropela
A vida de frente, atropela, atropela
Virgínia, a louca, a doida da corte
De aquário
Virgem Virgínia se acabou
Essa cidade atropela, atropela, atropela...
Ela vinha numa manhã
Rachada
Pelo vento que soprou
De madrugada
No frio de uma manhã de maio
De franja na testa
Tentava esconder o pensamento
Que só pensava em mim
Ela pensava em nós
Meu cigarro clareando
A madrugada
Nosso quarto, nossa vida, nossa casa
Na beira do mangue
Na beira da lama
Na beira de Olinda
Eu nem me lembro da casinha
pequenina
Na beira do mangue
Na beira da lama
Na beira de Olinda
Perdida em 78 rotações...
O Brasil existe em mim
Como chorinho de criança
O Brasil existe em mim
Como sambinha de esperança
Toca meu tamborim
O Brasil existe em mim
Com seus olhos de criança
O Brasil é um batuque
Toque de quem toca agogô
O Brasil é um pandeiro
Toque de quem joga capoeira
O Brasil é um enredo
Toque de quem samba
Na escola da mangueira
Toque de quem canta
Sou brasileiro a vida inteira
A gente espera e não se cansa
Madrugada a gente acorda
No sereno a gente planta
O dia inteiro trabalha
e de noite a gente ama
A vida toda a gente sonha
No carnaval a gente dança
O Brasil existe em mim
Como um sorriso de criança
Cadê você?
Quero te ver
Cadê você?
Pra te dizer
Cadê você?
Quero te amar
Cadê você?
Vou te achar
Você sumiu
Te procurei
Ninguém te viu
Não mais te achei
Corri atrás
Não tava mais
Pode esperar
Vou te encontrar, eu vou
Hoje eu tenho uma certeza
Vou te ver de novo
Vamos nos sentar à mesa
Num dia de chuva
Vou matar essa saudade
Que devora aos poucos
E abusar da felicidade
Como semi-loucos
Molho meus pés
À beira-mar
Pensando em nós
Tão grande amor
Fui lá na estrela
Aquela nossa
Sempre a mais bela
Tão luminosa
No arco-íris
Na alvorada
Os nossos lírios
Nem ti, nem nada
Cadê você?
Quero te ver
Não vá sumir
Vou te pedir, eu vou
Hoje eu tenho uma certeza
Vou te ver de novo
Vamos nos sentar à mesa
Num dia de chuva
Vou matar essa saudade
Que devora aos pouco
E abusar da felicidade
Como semi-louco