O GLOBO – Segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
Silvio Essinger – Segundo Caderno

Nascido há 65 anos, na pequena cidade de São Bento do Una, no interior de Pernambuco, Alceu Valença se mudou com a família para Recife aos 9. E lá descobriu uma música tão fascinante quanto os aboios, as emboladas e o canto dos violeiros que ouvira na sertaneja primeira infância. Afinal, ele fora morar na Rua Palmares, um verdadeiro carnavalódromo.
— Eu via passar a maioria dos blocos que iam para o centro da cidade — conta o cantor, que ali então tomou contato com frevos, maracatus e caboclinhos que, anos mais tarde, fariam parte de sua música. Essa mesma que, em 2012, será homenageada pelo carnaval multicultural de Recife.
No ano em que completa 40 de carreira (que serão marcados também pelo lançamento de um DVD ao vivo e de seu primeiro filme como diretor e roteirista), o autor de frevos e de sucessos que viraram hinos da folia, como "Bicho maluco beleza", "Coração bobo" e "Estação da luz", ganha, dia 17, sexta-feira de carnaval, no Marco Zero, um show no qual Ney Matogrosso, Pitty, Criolo, Lenine, Otto, Lirinha e Karina Buhr irão reler suas composições.
— Vamos mostrar um Alceu mais inserido no contexto das novas gerações, que não o conhecem tão bem — conta Pupilo, baterista da Nação Zumbi, diretor musical do espetáculo.
Alceu, por sua vez, faz no carnaval uma maratona de shows por Recife, que começa no Baile Municipal (sexta) e segue pelo Galo da Madrugada (sábado), pelos polos de Ibura (domingo) e do Chão de Estrelas (segunda), fechando no Marco Zero (terça). É um agito a mais para quem está acostumado a acompanhar os festejos de Momo da vizinha Olinda, na sacada de sua casa, a "sede Olinda", que há muito virou ponto turístico da cidade. Passando por lá, o povo grita "Alceu, Alceu, Alceu!" quando ele aparece na janela.
— Um dia, um cara subiu numa escada que estava sendo usada para pintar uma sacada e apareceu no primeiro andar para fotografar a minha casa! — diverte-se.
Ele vê toda essa festa no carnaval como um grande tributo a Pernambuco, terra da qual se considera "um espelho que deu certo".
— Eu divido essa homenagem com os maestros Duda, Clóvis Pereira, Nelson Ferreira, Menezes, Formiga... e com o povo pernambucano, que luta pela sua maneira de se exprimir. Porque as rádios de Pernambuco não tocam mais a música de Pernambuco — alerta. — O que se toca aqui é muita música sertaneja, muita música baiana. Há 15 anos, assim que acabava o réveillon, começava o carnaval. Agora, só tocam a música de carnaval no dia em que ele começa. Música nenhuma será sucesso desse jeito.
O problema, diz Alceu, é que "o bailão tomou conta do sertão".
— O Brasil está com uma trilha sonora ridícula. O que se ouve em rádio não tem nada a ver com o Brasil. Ou vai para o lado americanalhado, dos cantores que ficam fanhosos para parecerem texanos, ou da obrigatoriedade de ser brega, de ter mau gosto — fuzila.
Por trás da dureza das críticas, está um artista com horror a modismos e dogmatismos.
— Na faculdade, existia uma briga muito grande entre chiquistas e caetanistas. Nunca me envolvi, porque os dois são bons — diz ele, que celebra em 2012 os 40 anos do lançamento do primeiro LP, com o cantor Geraldo Azevedo.
Os dois se conheceram no Rio, onde Alceu tinha arrumado emprego e apenas flertava com a música. Após ouvir algumas composições do iniciante, Geraldo o convidou para ir à sua casa no dia seguinte.
— Lá, ele me mostrou uma música e eu saí psicografando a letra, de uma canetada só. Era "Talismã" — conta Alceu.
Só quem não gostou dela foram os militares, que chamaram o cantor para uma conversa sobre a letra. Nela, o nome Joana aparecia perto da palavra "viagem", o que, segundo a lógica da Censura, constituía uma evidente menção à proibida marijuana.
— Aí eu dei uma sugestão: pode ser Diana, a caçadora? Diana perto da "viagem" não é maconha, não é mesmo? — recorda-se, às gargalhadas, pelo absurdo da situação.
E por falar em um quase-absurdo, Alceu avisa que "Luneta do tempo", o musical de longa-metragem iniciado há 12 anos, já está montado, faltando apenas a finalização para chegar às telas em 2012.
Com Irandhir Santos e Hermila Guedes nos papéis de Lampião e Maria Bonita, "Luneta" ainda tem um personagem, Severo Filho (Ari de Arimatéa), que sonha em ser Luiz Gonzaga. O que lembrou Alceu de que o velho Lua completaria seu centenário esse ano. Boa oportunidade para reler a obra do amigo, que conheceu em Juazeiro ("Ele disse que meu conjunto com guitarras parecia uma banda de pifes elétrica") e que gravou uma música sua ("Plano piloto", especialmente encomendada).
Em março, Alceu grava ao vivo, no Marco Zero, o DVD "Lua e eu".
— Esse show já está no meu computador há muito tempo, tenho toda a ordem das músicas — diz Alceu. — Os elementos da cultura que Luiz Gonzaga ordenou e levou para a indústria são os mesmos que eu tenho nas minhas músicas. Ele fala em lua em "Estrada de Canindé" ("que bom, que bom que é/ uma estrada e a lua branca/ no sertão de Canindé") e eu em "Solidão" ("a solidão dos astros/ a solidão da lua"). Será um DVD conectado.
Alceu atenta para o fato de que "esse ano vão aparecer dezenas de pessoas fazendo coisas pra Gonzagão". E pede coerência.
— As coisas têm que ter uma lógica. Eu não participaria, por exemplo, de um DVD sobre Roberto Carlos. Eu o admiro muito, mas não tenho nada a ver com a música dele!
Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/cultura/alceu-valenca-celebrado-no-carnaval-de-recife-3790532#ixzz1kxYkTtde
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Katherine Coutinho e Luna Markman
Do G1 PE - 02 de Janeiro de 2012
O carnaval 2012 do Recife vai homenagear dois artistas de Pernambuco: o cantor Alceu Valença e o pintor Zé Cláudio. Esse último, nascido em Ipojuca, há 79 anos, é avesso a aparições públicas. Prefere permanecer no seu universo de tintas, papéis e paisagens. Já aquele primeiro saiu de São Bento do Una e virou a cara da folia pernambucana, levando aos palcos a poesia em forma de frevo, ciranda e maracatu.
Aos 65 anos, em 2012 Alceu já decidiu que vai se fantasiar do louco cavaleiro Dom Quixote de La Mancha para travar, mais uma vez, no reinado de Momo, uma batalha inglória: valorização da cultura local. A ideia de vestir-se igual ao personagem da principal obra de Miguel de Cervantes surgiu quando Alceu deixou a barbicha crescer e começou a ser confundido com um espanhol. “Vai ver sou mesmo um espanhol de Valencia”, brinca. O tom fica sério ao justificar a escolha da fantasia. “Eu luto contra o moinho dos jabás, dos cartéis. É uma luta inglória, mas gloriosa enquanto luta. Pernambuco precisa se voltar para as suas tradições, não ser subserviente ao Sul. A gente não pode ficar calado”, disse.
E se o assunto é frevo, ele não para
mesmo de falar, pois é inconformado com a falta de renovação no cenário. “Sabe
por que o frevo não se renova? É que mesmo dentro de uma cultura tão rica, as
coisas quase sempre acontecem de maneira oportunista. Agora, no centenário de
Luiz Gonzaga, vai aparecer um bocado de gente se aproveitando para fazer
homenagens, gente que não tem nada a ver com ele, fazendo arte sem sentimento,
nem verdade. Arte não é entretenimento”, esbraveja.
O cantor vai gravar um DVD para lembrar o Rei do Baião. O repertório, com
músicas de sua autoria, está montado e o projeto foi batizado de “Lua e eu”, em
referência ao apelido de Gonzagão. Vale ressaltar que Alceu já tem dois discos
dedicados ao mestre. A expetativa é que a gravação seja realizada ainda em
2012.
Alceu também está com um disco na manga. Será de frevo e já tem, pelo menos, dez composições inéditas. Mas só deve ser lançado em 2013. ‘Frevo da Lua’ foi a última música do gênero lançada por Alceu, no carnaval de 2011. “Eu já percebi que as minhas músicas demoram uns cinco anos para ‘pegar’. As rádios não tocam frevo, a divulgação é pouca. Como querem a renovação?”, reinicia o discurso com paixão.
Na verdade, ele não precisaria mais brigar por espaço na mídia. Mas, assim, também não seria o Alceu Valença, aquele que segue “agalopado”, título de uma de suas músicas. “Eu canto a dor, o amor, o desengano, e a tristeza infinita dos amantes... Dom Quixote liberto de Cervantes... Descobri que os moinhos são reais, entre feras, corujas e chacais... Viro pedra no meio do caminho, viro rosa, vereda de espinhos... Incendeio esses tempos glaciais”, cantarola.
O frevo defendido por Alceu é também inspiração para Zé Cláudio. “Meus quadros são em ritmo de frevo. Eu busco fazer uma pintura que transmita a alegria do mundo. É como um frevo, algo para mandar a tristeza embora”, explica Zé, que se apaixonou pelo carnaval ainda criança. “Minha vida começou em Ipojuca, por isso ela é o centro de tudo para mim, mas o carnaval do Recife é uma inspiração única. Foi ali que eu comecei a ver o mundo”, diz, apaixonado.
Os embrulhos da loja do pai, Amaro Silva, foram as primeiras telas utilizadas pelo artista, que abandonou a faculdade de Direito em 1952 para se dedicar à arte. Até hoje, a maior parte de seu tempo é dedicado à pintura, tanto que a casa em que mora, em Olinda, é repleta de obras, telas e tintas, funcionando também como ateliê. “Isso é o que eu faço, a pintura faz parte de mim”, declara.
Para o artista plástico, ser homenageado pelo festa da capital pernambucana nada mais é que ter seu amor pelo carnaval reconhecido. “Adoro a cultura popular do carnaval, os ursos, aqueles blocos menores. É a criatividade do povo na rua”, conta Zé. A decoração do Recife neste ano vai ser baseada na obra dele. “Obras de toda a minha vida vão enfeitar a cidade, são coisas que eu já fiz, que fazem parte da minha história. Eu nunca imaginei poder ver o Recife como um outdoor do meu trabalho”, confessa o artista.
Homenageado também pelo Olinda Arte em Toda Parte de 2011, Zé Claudio é conhecido por ter reinaugurado a pintura de paisagem no Brasil. O motivo, para ele, é bem simples. “O povo pernambucano é apaixonado por sua terra. A arte é reflexo disso, por isso os coqueiros e casarios de Olinda aparecem também nas minhas obras”, lembra o artista.
